domingo, 20 de fevereiro de 2011

Poema em Linha Reta

"Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza."


Fernando Pessoa

sexta-feira, 12 de março de 2010

Mestre Ambrósio

"Há muito mais
Do que esperamos ser,
Tem mais além
De onde podemos ver ...

Mais muito há
Do que pensamos ter,
Além do mais
Do que queremos crer !"

sexta-feira, 6 de março de 2009

A Arte da Escolha.

"Kausika, o brâmane, que agora arde no Inferno,
ansiava pela Virtude,
e em toda a sua vida jamais disse uma mentira,
nem por brincadeira.
Certa vez, vendo a vítima indefesa
passar correndo por ele e se esconder,
Kausika, sentado onde os rios se encontram
respondeu aos bandidos: - 'Por ali !'
Portanto, sejam como o cisne,
que bebe do leite e da água, misturados,
mas escolhe apenas o que ele quer,
e relega o outro."

Mahabharata

Realidade nua e crua.

"Em verdade, há tanta diferença na maneira como se vive do modo como se deveria viver que quem despreza o que se faz pelo que deveria ser feito, aprenderá a provocar sua própria ruína e não a sua preservação."

O Príncipe - Nicolau Maquiavel (1469-1527)

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Para ser Grande

"Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa,
põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
porque alta vive."

Fernando Pessoa

sábado, 27 de outubro de 2007

Sabedoria de um rei...

..."Yudhishthira ergueu os olhos mas não havia ninguém . Novamente, porém, a voz invisível falou.

- Este é meu lago. Eu sou um grou e me alimento de pequeninos peixes. E matei seus irmãos por que não conseguiram responder às minhas perguntas.

- Quem é você para agir assim ? - Indagou Yudhishthira. - Uma mera ave não seria capaz disso.

- Eu sou o que sou - sentenciou a voz. - Que a boa fortuna o acompanhe ! Seus irmãos beberam do meu lago sem me responderem, e estão mortos. Primeiro surgiu Nakula com uma aljava vazia. Eu o avisei: "responda antes às minhas perguntas, depois tome quanta água quiser". Mas ele bebeu mesmo assim, e pereceu.
"Veio então Sahadeva, que teve o mesmo fim: sua precipitação e temeridade custaram-lhe a vida. Quando falei com Arjuna, ele me desafiou, exigindo que eu me revelasse. Disparou flechas em todas as direções. Indaguei a ele por que se esforçava tanto por nada, se bastaria que me respondesse para poder beber a água. Mas ele me desprezou, julgando-me pequeno e indefeso; bebeu e pereceu.
"Bhima chegou e falei com ele. Sei que me ouviu, mas não se dignou erguer os olhos e, como pensou que teria que lutar contra mim, matou primeiro sua sede, e depois a si mesmo.
"Agora você está aqui, e eu lhe faço a mesma advertência: 'Responda antes às minhas perguntas, depois beba o quanto quiser'."

Yudhishthira imaginou-se vítima de um encantamento, mas ouviu os veados e os ursos entre as árvores, pássaros cantando e os pés de cana e de junco balançando ao vento e soube que não havia conjuro algum.

- Pergunte.
- Quem é então o amigo dado pelos deuses ? - Disse a voz invisível.
- É a esposa esse amigo, e um amparo seguro - Respondeu Yudhishthira.
- O que pesa mais que a Terra ?
- Uma mãe.
- O que está além dos céus ?
- Um pai.
- O que é mais célere que o vento ?
- A mente é mais célere que o vento.
- O que é mais numeroso que as folhas de grama numa campina ?
- Nossos pensamentos são muito mais numerosos.
- O que não se move após nascer para o mundo ?
- Um ovo não se move.
- O que não tem coração ?
- A pedra.
- Qual é o arrimo do homem ?
- As nuvens.
- Quem é o amigo dos doentes ?
- O médico.
- E o amigo do moribundo ?
- Este amigo é a caridade.
- A quem todas as formas de vida aceitam como hóspede ?
- O fogo.
- O que é o universo inteiro ?
- Nada senão ar rarefeito e espaço vazio.
- O que viaja sozinho eternamente ?
- O sol.
- O que renasce após seu nascimento ?
- A lua.
- Qual a melhor dentre todas as coisas que são louvadas ?
- A habilidade.
- Qual o bem mais valioso ?
- O conhecimento.
- O que não se considera antes que parta ?
- A saúde.
- Qual a maior felicidade ?
- O contentamento.
- O que enriquece aquele que a lança fora ?
- A cobiça.
- E o que é a cobiça?
- Um veneno.
- O que encobre todo o mundo ?
- A escuridão.
- O que impede uma coisa de se descobrir ?
- Também a escuridão.
- Que inimigo jamais é vencido ?
- É a ira.
- O que é a honestidade ?
- É olhar e ver todas as criaturas vivas como a você mesmo, partilhando com elas o seu próprio anseio de viver e o seu medo da morte.
- Como a paz pode ser falsa ?
- Quando é tirania.
- Que doença é incurável ?
- Um falso amigo.
- Por que se abandonam os amigos ?
- Por avareza.
- O que é a inveja ?
- Desgosto do coração.
- E o que é desgosto ?
- É a ignorância.
- O que causa o desejo de bens e propriedades ?
- Nada senão os próprios bens e propriedades.
- Quem está no Inferno, ainda que viva na Terra ?
- O homem rico que nem se deleita nem sabe dar aos outros.
- O que os homens chamam de boa fortuna ?
- É o resultado do que fizeram honestamente.
- Quem é desonesto ?
- O impiedoso.
- O que é hipocrisia ?
- A determinação de valores religiosos para os outros é hipocrisia.
- Bondade, proveito e desejo são hostis entre si. Como podem ser harmonizados ?
- Quando uma esposa é boa, todos os três são um.
- Quem é verdadeiramente feliz ?
- Um homem sem dívidas.
- Qual a maior maravilha de todas ?
- Todos os dias a Morte toma vidas incontáveis e, no entanto, aqueles que vivem pensam: "A morte não virá hoje a mim de modo algum".
- Qual é a coisa mais rara ?
- Saber quando parar.
- Qual é a verdadeira riqueza ?
- Amor e bondade são melhores que o ouro; a honra é mais valiosa que salas repletas de jóias. Não sei o que pensa sobre tudo isso.
- Você responde bem - disse a voz invisível. - Eu sou o seu pai, Dharma. Vim testar seus méritos, e constato que são verdadeiros. E restauro a vida a seus irmãos.

Yudhishthira umedeceu sua túnica externa com água, torcendo-a sobre os irmãos para que voltassem à vida. E disse-lhes:

- Por não obedecerem a Dharma, ele transformou a água em veneno, e vocês permaneceram mortos até que eu respondesse a ele.

Arjuna ergueu seu arco e suas flechas esparramadas.

- Sinto-me melhor do que antes de morrer. Quando chegarmos a nossas carruagens, matarei um veado para cada um de nós.
- Um veado bastará - disse Sahadeva.
- Por que um apenas ?
- Por que amanhã à meia noite tem início o décimo terceiro ano."

Mahabharata

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Ponto de Mutação

"Tu perguntas o que a lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados ? Respondo que o oceano sabe. Por quem a medusa espera em sua veste transparente ? Está esperando pelo tempo, como tu. 'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas 'mais firme que uma hora e um mar certos ?' Eu sei. Perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpoado, morre. Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.

Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre as uvas cor de sangue tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.

Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento."


Pablo Neruda (1904 - 1973)