quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Para ser Grande

"Para ser grande, sê inteiro:
Nada teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa,
põe quanto és
no mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda brilha,
porque alta vive."

Fernando Pessoa

sábado, 27 de outubro de 2007

Sabedoria de um rei...

..."Yudhishthira ergueu os olhos mas não havia ninguém . Novamente, porém, a voz invisível falou.

- Este é meu lago. Eu sou um grou e me alimento de pequeninos peixes. E matei seus irmãos por que não conseguiram responder às minhas perguntas.

- Quem é você para agir assim ? - Indagou Yudhishthira. - Uma mera ave não seria capaz disso.

- Eu sou o que sou - sentenciou a voz. - Que a boa fortuna o acompanhe ! Seus irmãos beberam do meu lago sem me responderem, e estão mortos. Primeiro surgiu Nakula com uma aljava vazia. Eu o avisei: "responda antes às minhas perguntas, depois tome quanta água quiser". Mas ele bebeu mesmo assim, e pereceu.
"Veio então Sahadeva, que teve o mesmo fim: sua precipitação e temeridade custaram-lhe a vida. Quando falei com Arjuna, ele me desafiou, exigindo que eu me revelasse. Disparou flechas em todas as direções. Indaguei a ele por que se esforçava tanto por nada, se bastaria que me respondesse para poder beber a água. Mas ele me desprezou, julgando-me pequeno e indefeso; bebeu e pereceu.
"Bhima chegou e falei com ele. Sei que me ouviu, mas não se dignou erguer os olhos e, como pensou que teria que lutar contra mim, matou primeiro sua sede, e depois a si mesmo.
"Agora você está aqui, e eu lhe faço a mesma advertência: 'Responda antes às minhas perguntas, depois beba o quanto quiser'."

Yudhishthira imaginou-se vítima de um encantamento, mas ouviu os veados e os ursos entre as árvores, pássaros cantando e os pés de cana e de junco balançando ao vento e soube que não havia conjuro algum.

- Pergunte.
- Quem é então o amigo dado pelos deuses ? - Disse a voz invisível.
- É a esposa esse amigo, e um amparo seguro - Respondeu Yudhishthira.
- O que pesa mais que a Terra ?
- Uma mãe.
- O que está além dos céus ?
- Um pai.
- O que é mais célere que o vento ?
- A mente é mais célere que o vento.
- O que é mais numeroso que as folhas de grama numa campina ?
- Nossos pensamentos são muito mais numerosos.
- O que não se move após nascer para o mundo ?
- Um ovo não se move.
- O que não tem coração ?
- A pedra.
- Qual é o arrimo do homem ?
- As nuvens.
- Quem é o amigo dos doentes ?
- O médico.
- E o amigo do moribundo ?
- Este amigo é a caridade.
- A quem todas as formas de vida aceitam como hóspede ?
- O fogo.
- O que é o universo inteiro ?
- Nada senão ar rarefeito e espaço vazio.
- O que viaja sozinho eternamente ?
- O sol.
- O que renasce após seu nascimento ?
- A lua.
- Qual a melhor dentre todas as coisas que são louvadas ?
- A habilidade.
- Qual o bem mais valioso ?
- O conhecimento.
- O que não se considera antes que parta ?
- A saúde.
- Qual a maior felicidade ?
- O contentamento.
- O que enriquece aquele que a lança fora ?
- A cobiça.
- E o que é a cobiça?
- Um veneno.
- O que encobre todo o mundo ?
- A escuridão.
- O que impede uma coisa de se descobrir ?
- Também a escuridão.
- Que inimigo jamais é vencido ?
- É a ira.
- O que é a honestidade ?
- É olhar e ver todas as criaturas vivas como a você mesmo, partilhando com elas o seu próprio anseio de viver e o seu medo da morte.
- Como a paz pode ser falsa ?
- Quando é tirania.
- Que doença é incurável ?
- Um falso amigo.
- Por que se abandonam os amigos ?
- Por avareza.
- O que é a inveja ?
- Desgosto do coração.
- E o que é desgosto ?
- É a ignorância.
- O que causa o desejo de bens e propriedades ?
- Nada senão os próprios bens e propriedades.
- Quem está no Inferno, ainda que viva na Terra ?
- O homem rico que nem se deleita nem sabe dar aos outros.
- O que os homens chamam de boa fortuna ?
- É o resultado do que fizeram honestamente.
- Quem é desonesto ?
- O impiedoso.
- O que é hipocrisia ?
- A determinação de valores religiosos para os outros é hipocrisia.
- Bondade, proveito e desejo são hostis entre si. Como podem ser harmonizados ?
- Quando uma esposa é boa, todos os três são um.
- Quem é verdadeiramente feliz ?
- Um homem sem dívidas.
- Qual a maior maravilha de todas ?
- Todos os dias a Morte toma vidas incontáveis e, no entanto, aqueles que vivem pensam: "A morte não virá hoje a mim de modo algum".
- Qual é a coisa mais rara ?
- Saber quando parar.
- Qual é a verdadeira riqueza ?
- Amor e bondade são melhores que o ouro; a honra é mais valiosa que salas repletas de jóias. Não sei o que pensa sobre tudo isso.
- Você responde bem - disse a voz invisível. - Eu sou o seu pai, Dharma. Vim testar seus méritos, e constato que são verdadeiros. E restauro a vida a seus irmãos.

Yudhishthira umedeceu sua túnica externa com água, torcendo-a sobre os irmãos para que voltassem à vida. E disse-lhes:

- Por não obedecerem a Dharma, ele transformou a água em veneno, e vocês permaneceram mortos até que eu respondesse a ele.

Arjuna ergueu seu arco e suas flechas esparramadas.

- Sinto-me melhor do que antes de morrer. Quando chegarmos a nossas carruagens, matarei um veado para cada um de nós.
- Um veado bastará - disse Sahadeva.
- Por que um apenas ?
- Por que amanhã à meia noite tem início o décimo terceiro ano."

Mahabharata

sexta-feira, 3 de agosto de 2007

O Ponto de Mutação

"Tu perguntas o que a lagosta tece lá embaixo com seus pés dourados ? Respondo que o oceano sabe. Por quem a medusa espera em sua veste transparente ? Está esperando pelo tempo, como tu. 'Quem as algas apertam em seu abraço...', perguntas 'mais firme que uma hora e um mar certos ?' Eu sei. Perguntas sobre a presa branca do narval e eu respondo contando como o unicórnio do mar, arpoado, morre. Perguntas sobre as plumas do rei-pescador que vibram nas puras primaveras dos mares do sul.

Quero te contar que o oceano sabe isto: que a vida, em seus estojos de jóias, é infinita como a areia incontável, pura; e o tempo, entre as uvas cor de sangue tornou a pedra dura e lisa, encheu a água-viva de luz, desfez o seu nó, soltou seus fios musicais de uma cornucópia feita de infinita madrepérola.

Sou só a rede vazia diante dos olhos humanos na escuridão e de dedos habituados à longitude do tímido globo de uma laranja. Caminho, como tu, investigando a estrela sem fim e em minha rede, durante a noite, acordo nu. A única coisa capturada é um peixe dentro do vento."


Pablo Neruda (1904 - 1973)